Universidade além do Campus
Ensino, pesquisa e extensão são as funções básicas da universidade e conforme o artigo 207 da Constituição Brasileira, as Instituições de Ensino Superior, IES, devem obedecer ao princípio da indissociabilidade desses três pilares. Entretanto, a realidade universitária revela que a Extensão parece ser a preterida da academia. Desconhecida para muitos e desvalorizada por outros tantos, ela ocupa um papel secundário no processo de formação acadêmica.
Falta informação e incentivo. Muitos estudantes concluem a graduação sem conhecer ou participar de nenhum projeto de extensão e não é raro encontrar universidades, principalmente particulares, que sequer desenvolvem trabalhos dessa natureza. Dentre as possíveis explicações para tal fenômeno, uma se sobressai: do ponto de vista mercadológico, que parece gerir todo o sistema educacional, extensão é perda de tempo. Em contrapartida, há quem compreenda a importância dessas atividades e, por isso se torna cada vez maior o número de iniciativas em todo o país. O ensino superior agradece!
Essa transposição de muros e portões, entretanto, apesar de ser um importante passo para a flexibilização da estrutura das IES e consequente democratização do ensino, de modo algum pode ser considerada um ponto final. Há que se (re)avaliar os moldes que sustentam essas intervenções, desde seus objetivos até os resultados. Muito mais que assistência, a extensão universitária eficaz deve instigar e oferecer condições para a participação. Muito mais que entregar respostas, deve fomentar questionamentos.
Não há espaço para dúvida sobre a necessidade de que o conhecimento acadêmico não fique restrito ao campus. É prudente e real a prerrogativa de que uma universidade ilhada, alheia ao contexto em que se localiza, não cumpre com sua responsabilidade social e perde a oportunidade de oferecer aplicabilidade ao ensino, já que quadro e giz não são capazes de fazê-lo. Porém, para muito além disso, tem-se fortalecido um novo modelo de extensão, menos autoritário e presunçoso, no qual os projetos atuam como uma ponte permanente, pela qual circulam livremente os saberes científico e popular.
Nesse modelo, a universidade abre espaço para as manifestações, necessidades e aspirações das comunidades, o que resulta numa relação mais ampla e cíclica de ensino-aprendizagem. Nesse processo a universidade finalmente começa a abrir mão da posição em que se colocara, a de detentora exclusiva do conhecimento. Nessa via de mão dupla em que universidade e sociedade interagem entre si, influenciam-se mutuamente, permeam-se, pressupõe-se uma troca de valores que seja capaz, por exemplo, de levar para a realidade das comunidades populares os benefícios práticos do ensino produzido pelas diversas áreas do conhecimento científico e ao mesmo tempo de permear de humanidade as rígidas estruturas da ciência.
E fica a expectativa de que esse modelo, hoje sinônimo de exceção, chegue a um dia tornar-se comum. E mais que isso, que ao deixar de ser novo, possa, por meio de constante reflexão e reinvenção, ser superado por outros modelos ainda mais eficazes na busca por uma sociedade cooperativa e igualitária.
Fran Rodrigues,
estudante de jornalismo e bolsista
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